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Atitudes e Perceções dos Psiquiatras e Psicólogos Portugueses sobre o Uso Clínico de Cetamina

  • A maioria dos participantes demonstrou abertura à utilização clínica da cetamina, com 78,9% a pretender formação adicional e 79,4% a defender mais investigação.
  • Apenas 35,9% dos respondentes indicam ter boa compreensão do potencial terapêutico da cetamina, verificando-se lacunas significativas de conhecimento nos profissionais de saúde mental portugueses.
  • As principais preocupações incluem: falta de formação especializada; receios relativamente a eventual risco de psicose e; possibilidade de uso indevido, destacando a necessidade de protocolos estruturados.

Investigadores defendem regulamentação clara, protocolos bem definidos, promoção de práticas clínicas éticas e seguras e mais investigação para garantir a eficácia, a segurança e a confiança dos profissionais e dos pacientes.

O artigo “Atitudes e Perceções dos Psiquiatras e Psicólogos Portugueses sobre o Uso Clínico de Cetamina”, publicado na edição de maio de 2025 na Revista Acta Médica Portuguesa, veio colmatar a escassez de informação sobre as perspetivas de profissionais de saúde mental em Portugal — psiquiatras, médicos internos de Psiquiatria e psicólogos clínicos — sobre a utilização da cetamina no tratamento da depressão resistente ao tratamento (DRT). A cetamina tem vindo a ser amplamente estudada e aplicada, a nível internacional, como intervenção rápida e eficaz para casos graves de depressão, sobretudo quando os tratamentos convencionais falham. Vários ensaios clínicos controlados têm validado a sua eficácia, levando mesmo à sua integração nas principais diretrizes internacionais como opção de segunda linha de tratamento. Em Portugal, desde 2021, já se encontram em funcionamento protocolos de tratamento com cetamina em instituições públicas e privadas.

O estudo foi realizado pelo Centro Interdisciplinar de Estudo da Performance Humana, da Faculdade de Motricidade Humana - UL, em parceria com a Sociedade Portuguesa de Aplicação Clínica de Enteógenos (SPACE), e recorreu a um survey online anónimo e validado por especialistas internacionais, para avaliar as atitudes, conhecimentos, preocupações, fontes de informação e perceção da formação necessária relativamente ao uso da cetamina em contexto clínico.

Os dados revelam que apenas 35,9% dos 156 profissionais portugueses representados na amostra se consideram bem informados sobre o potencial terapêutico da cetamina, e apenas cerca de um terço constata ter conhecimentos adequados sobre os seus riscos e efeitos adversos. No entanto, a maioria dos inquiridos (59,6%) expressa abertura à integração da cetamina na sua prática clínica, sendo que 78,9% manifestam interesse em receber formação específica nesta área. Entre as principais preocupações, destacam-se o receio quanto à eventual falta de profissionais com formação especializada (73%), o risco de utilização indevida ou abuso por parte dos pacientes e a administração a pacientes com contraindicações clínicas (cerca de 50%).

Quanto à formação, os participantes revelam confiar sobretudo em centros de investigação (84,2%), organizações profissionais (79,7%) e colegas com mais experiência (74,7%), mostrando menor confiança em instituições privadas e empresas farmacêuticas. Os médicos psiquiatras revelam maior conhecimento sobre a cetamina e mostram-se mais favoráveis à sua utilização clínica do que os psicólogos. Os profissionais mais jovens (≤35 anos) demonstram mais interesse em formação e maior abertura à utilização da cetamina, ao contrário dos profissionais do grupo etário intermédio (36–49 anos), que apresentaram menor perceção de conhecimento e mais preocupações com efeitos adversos.

Na discussão do artigo, os autores sublinham que, apesar da elevada abertura dos profissionais à utilização da cetamina, persistem lacunas significativas ao nível da formação e conhecimento técnico, que devem ser colmatadas com programas de formação especializados e ajustados ao perfil dos profissionais (idade, género e área de formação). Os investigadores defendem a necessidade de regulamentação clara e protocolos bem definidos, bem como de promoção de práticas clínicas éticas e seguras, especialmente numa área emergente como a terapêutica com psicadélicos.

Em Portugal, pesar de já existirem algumas iniciativas, como cursos introdutórios e manuais técnicos publicados por sociedades científicas, não existe ainda uma estrutura de formação amplamente acessível e reconhecida. O artigo apela à realização de mais investigação sobre os efeitos a longo prazo da cetamina, especialmente em contextos clínicos reais e com protocolos padronizados, de forma a garantir a eficácia, a segurança e a confiança dos profissionais e dos pacientes.

Notas metodológicas: O survey anónimo e confidencial foi disponibilizado entre junho de 2022 e janeiro de 2024. A amostra foi constituída por 156 profissionais de saúde mental portugueses, com uma média de idade de 37,2 anos, dos quais 68,6% eram do sexo feminino. Do total de participantes, 53,8% eram psicólogos e 46,2% médicos de Psiquiatria.

O artigo completo poderá ser acedido através da página da Acta Médica Portuguesa.

Pode ser lido também a cobertura jornalística pelo Expresso, através deste link.