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Três ensaios clínicos de fase 3 que poderão contribuir para a legalização do uso clínico de psicadélicos

Três ensaios clínicos de fase 3 que poderão contribuir para a legalização do uso clínico de psicadélicos

14 de agosto de 2022 8 minutos de leitura

  • Pedro Mota
  • Psicadélicos
  • Psiquiatria

O caminho para a legalização tem vários percursos. Estes 3 ensaios clínicos serão aqueles com melhores hipóteses de conduzir à legalização do uso clínico de psicadélicos.

Quando serão os psicadélicos legalizados nos Estados Unidos [e na Europa]? Embora seja uma pergunta simples, ela tem muitas respostas diferentes, dependendo exatamente do que se está a perguntar. Se nos referirmos a quando é que substâncias como a psilocibina e o MDMA serão legalizadas para uso não-clínico/recreativo, a resposta provavelmente é que não deveremos estar perto disso – embora estados específicos como Oregon e Colorado possam se mover mais rapidamente nessa direção. No entanto, se estivermos a perguntar quando é que essas substâncias serão legalizadas como medicamentos para tratar condições de saúde específicas, a resposta poderá ser "em breve — muito em breve". Dependendo dos resultados dos atuais ensaios clínicos com psicadélicos, pode ser nos próximos anos.

Para entender o porquê, precisamos de entender um pouco da história recente e como os medicamentos se tornaram legais para prescrição nos Estados Unidos.

Para que um medicamento se torne um medicamento legal, ele deve passar por um sistema complexo de ensaios clínicos. Este é um processo com quatro etapas principais. Primeiro, um medicamento deve ser testado quanto à segurança e eficácia em animais - essa é a etapa pré-clínica. Se for considerado seguro e eficaz, o medicamento é testado quanto à sua segurança num grupo muito pequeno de seres humanos – esses são os estudos de Fase 1. Se for considerado seguro, pode passar para os ensaios da Fase 2, onde num grupo de várias dezenas de pessoas o medicamento tentará tratar uma condição específica, como a depressão.

Se este ensaio for considerado eficaz e seguro, o medicamento pode então passar para os ensaios de Fase 3, nos quais se testa novamente a eficácia do medicamento no tratamento da doença — bem como a sua segurança — num grupo maior, geralmente com mais de 100 pessoas . Se o composto passar por dois ensaios de Fase 3 e for considerado mais eficaz ou mais seguro do que os tratamentos atuais, com a aprovação do FDA, ele poderá ser autorizado legalmente para tratar essa mesma condição.

Movendo-nos para a história recente, na última década, substâncias como MDMA, psilocibina e ketamina estão a caminhar lentamente por este processo dos ensaios clínicos. Todos os três completaram os ensaios de Fase 2, com resultados bastante satisfatórios. Agora, em 2022, todos as três substâncias estão ora a meio do processo de ensaios de Fase 3, ora prestes a iniciá-lo. Assim, se os resultados dos ensaios de Fase 3 corresponderem aos dos ensaios de Fase 2, em breve poderemos ver o MDMA, a psilocibina e ketamina devidamente legalizados para o seu uso enquanto medicamentos em circunstâncias específicas.

Neste artigo, examinar-se-ão três desses ensaios clínicos de Fase 3.

Psicoterapia Assistida por MDMA - Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT)

Ao contrário dos restantes nesta lista, o uso de psicoterapia assistida por MDMA para tratar a PSPT já está no seu segundo estudo de Fase 3. A MAPS, um associação sem fins lucrativos e a principal instituição que conduz investigação clínica com psicadélicos, concluiu o seu primeiro ensaio de Fase 3 em 2021.

Os resultados foram surpreendentes.

Nele, 88% dos participantes viram uma redução objetivável psicometricamente dos seus sintomas de PSPT de 50% ou mais, com 67% dos participantes a melhorarem substancialmente, de forma a que os mesmos — de acordo com a MAPS — “deixaram de apresentar critérios de diagnóstico de PSPT”. Após o ensaio terminar, contudo, vários participantes do estudo afirmaram que não foram posteriormente ajudados tanto quanto seria desejado para manter essa estabilidade clínica.

No entanto, o tratamento claramente ajudou muitas dos participantes, mesmo que não representasse uma panaceia. Diante desses resultados, a MAPS recebeu luz verde para iniciar o seu segundo ensaio de Fase 3.

Neste estudo de cerca de 100 participantes, a MAPS administrará a metade dos pacientes com PSPT – a outra metade está era no grupo que receberá o placebo – entre 80 e 180 mg de MDMA três vezes ao longo de um período de tratamento de 12 semanas. Cada período de dosagem será acompanhado por psicoterapia, sendo que uma terapia integrativa não-medicamentosa também se seguirá a cada sessão.

Se este ensaio obtiver resultados aproximadamente equivalentes ao seu antecessor, a FDA provavelmente dará luz verde à psicoterapia assistida por MDMA para tratar a PSPT pouco depois. De facto, segundo Rick Doblin, diretor executivo da MAPS, tal poderá acontecer já em 2023.

Psicoterapia Assistida por Psilocibina - Depressão

Logo atrás do MDMA nesta corrida está a psilocibina, a substância psicoativa dos “cogumelos mágicos”. Durante os últimos três meses de 2022, espera-se que a empresa Compass Pathways lance o primeiro ensaio clínico de Fase 3 de psicoterapia assistida por psilocibina no tratamento da Depressão Resistente ao Tratamento.

Tal dará continuidade ao seu ensaio clínico de Fase 2b que teve bons resultados, embora não tenha representado uma verdadeira mudança de paradigma. Nesse ensaio – o maior ensaio clínico com psicadélicos do mundo até hoje com 233 pacientes – aqueles que não estavam no grupo placebo receberam 25 mg de psilocibina, uma dose elevada. Três semanas após o tratamento, 36,7% dos pacientes viram os seus índices psicométricos de depressão caírem 50% ou mais, embora esse número tenha caído para 24,1% 12 semanas após o tratamento.

Embora isso não pareça muito surpreendente, é importante reconhecer que os pacientes neste estudo tinham depressão “resistente ao tratamento”, o que significa que tais pacientes tentaram - sem sucesso - tratar a sua doença com antidepressivos em doses optimizadas pelo menos duas vezes anteriormente. Noutras palavras, estes estariam entre os quadros clínicos mais difíceis de tratar, para os quais os tratamentos atuais simplesmente não são devidamente eficazes. Neste contexto, ter conseguido uma resposta sustentada em cerca de um quarto deles deve ser considerado uma vitória.

Ainda assim, temos novamente que recordar que os fármacos psicadélicos não estão a tentar mostrar-se como uma panaceia. Mesmo tratar eficazmente um quarto das pessoas para as quais esta modalidade terapêutica não está prontamente disponível é um benefício enorme para a sociedade.

Além disso, o facto de que os participantes tiveram que interromper os seus tratamentos farmacológicos – nomeadamente ISRSs – antes do início do estudo [critérios de admissão], pode ter comprometido os resultados.

Há evidências preliminares de que a psicoterapia assistida com psilocibina em formas menos graves de depressão é muito mais eficaz e que os pacientes podem permanecer a utilizar com segurança ISRSs simultaneamente a esta modalidade de terapia com psilocibina – embora sejam necessárias mais evidências para confirmar esta associação.

No entanto, se o primeiro ensaio de Fase 3 da Compass voltar a ser eficaz e, em seguida, seguir com um segundo ensaio de Fase 3, de acordo com Rick Doblin, poderemos assistir à aprovação clínica da psicoterapia assistida por psilocibina para a depressão já em 2024.

Terapia Assistida por Ketamina - Perturbação por Uso do Álcool (PUA)

Ao contrário do MDMA e da psilocibina, a ketamina já pode ser usada legalmente como um fármaco nos EUA [e na Europa], pois é um fármaco utilizado na Anestesiologia há décadas. Embora não seja habitualmente destinado a tratamentos na área da saúde mental, os profissionais podem legalmente usar a terapia assistida por ketamina de forma “off-label” para tratar várias condições, desde depressão a PSPT.

No entanto, é essencial que obtenhamos boas evidências clínicas de que esse tratamento é realmente eficaz.

É nesse contexto que a empresa Awakn Life Sciences irá lançar um estudo de Fase 3 que procurará avaliar a eficácia do tratamento da Perturbação por Uso do Álcool com terapia assistida por ketamina. Este estudo provavelmente começará a tratar cerca de 280 pacientes no início de 2023, e os follow-ups serão realizados 6 e 12 meses após o tratamento.

Este estudo de Fase 3 segue o estudo de Fase 2 de Awakn, onde os pacientes receberam três infusões de ketamina de 0,8 mg/kg, administradas por via intravenosa.

Os resultados foram também eles muito satisfatórios.

Dos pacientes que receberam esta terapia, 86% das pessoas com PUA estavam abstinentes do consumo de álcool 6 meses após o tratamento, em comparação com apenas 2% antes do início do estudo. Além disso, no período de 180 dias após o tratamento, os pacientes tiveram uma média de 162 dias de abstinência, e o risco de recaída foi 2,7 vezes menor para aqueles que receberam a terapia assistida com ketamina.

Talvez um dos aspetos mais importantes, foi a diminuição do risco de mortalidade observada. De acordo com Awakn, “1 em cada 8 pacientes teria morrido em 12 meses sem tratamento, e esse número diminuiu para 1 em 80 após este tratamento”.

Se os ensaios de Fase 3 se mostrarem igualmente eficazes, embora a terapia com ketamina já possa ser usada para tratar a PUA, provavelmente veremos um aumento da prescrição destas terapias, eventualmente alcançando milhões de pessoas.

Artigo Original de James Hallifax*, publicado na *Psychedelic Spotlight a 08/08/2022.

Tradução livre por Pedro Mota



Pedro Mota
Pedro Mota
Médico de Psiquiatria | SPACE (Direção)

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