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A maioria dos especialistas em Adições apoia a Legalização do uso terapêutico de Psicadélicos

A maioria dos especialistas em Adições apoia a Legalização do uso terapêutico de Psicadélicos

9 de maio de 2022 6 minutos de leitura

  • Patrícia Marta
  • Perturbações Aditivas & Dependências

A maioria dos especialistas em adições, incluindo psiquiatras, acreditam que os psicadélicos são promissores no tratamento das perturbações do uso de substâncias (PUS) e perturbações psiquiátricas e, com algumas ressalvas, apoiam a legalização destas substâncias para as referidas indicações, como mostram os resultados de um novo estudo.

Esta forte atitude positiva é “uma surpresa”, tendo em conta a prudência prévia dos especialistas em adições relativamente à legalização da canábis, como notou a investigadora do estudo Amanda Kim, médica de Psiquiatria no Brigham and Women’s Hospital, Boston, Massachusetts.

“Hipotetizámos que os especialistas em adições iriam expressar um maior ceticismo acerca dos psicadélicos comparativamente com os especialistas de outras áreas”, disse Kim.

Em vez disso, os especialistas em adições que participaram neste inquérito foram bastante a favor dos psicadélicos serem legalizados para uso terapêutico, mas apenas num ambiente controlado.

Os resultados foram apresentados no 32º Encontro Anual da American Academy of Addiction Psychiatry (AAAP).

Interesse Crescente

Nos anos recentes, tem-se verificado um maior interesse no seio da comunidade científica e no público em geral acerca do potencial terapêutico dos psicadélicos. “Estudos anteriores mostraram uma crescente positividade sobre os psicadélicos e apoio para a sua legalização entre os psiquiatras”, acrescentou Kim.

Os psicadélicos foram descriminalizados e/ou legalizados em várias jurisdições. A US Food and Drug Administration concedeu a designação de “Breakthrough Therapy” para o 3,4-metilenedioximetanfetamina (MDMA) no tratamento da perturbação de stress pós-traumático (PTSD) e concedeu a mesma designação para a psilocibina no tratamento da perturbação depressiva major.

“Apesar dos psicadélicos entrarem cada vez mais na corrente mainstream, não sabemos de nenhum estudo que avalie especificamente as atitudes atuais dos médicos especializados em adições sobre os psicadélicos”, afirmou Kim.

Para esta pesquisa, os investigadores identificaram participantes para o estudo prospetivo a partir do diretório da AAAP. Também contactaram diretores de programas de medicina da adição, bem como internos em estágio de psiquiatria da adição.

No inquérito online anónimo, foi pedido aos participantes que pontuassem o seu nível de concordância com 30 frases.

A análise incluiu 145 participantes (59% homens; idade média de 46,2 anos). Os psiquiatras constituíram cerca de dois terços da amostra. Os restantes pertenciam às especialidades de medicina interna e medicina geral e familiar. A maioria dos participantes tinha alguma exposição clínica aos psicadélicos. Quase 85% reportaram ter discutido uma experiência psicadélica com pelo menos um doente.

Atitudes Positivas, Preocupações

No geral, os participantes expressaram atitudes muito positivas no que concerne ao uso terapêutico de psicadélicos. Cerca de 64% concordaram fortemente ou concordaram que os psicadélicos mostram ser promissores no tratamento das PUS e 82% concordaram que estas substâncias mostram ser promissoras no tratamento de perturbações psiquiátricas.

Contudo, mais de um terço dos participantes (37,9%) expressaram preocupações com o potencial aditivo dos psicadélicos. Este valor é superior ao de questionários prévios a psiquiatras, possivelmente porque a definição “ampla” de psicadélicos no estudo incluiu os “psicadélicos não-clássicos, não-serotoninérgicos”, como a ketamina e o MDMA, referiu Kim.

Uma vez que a ketamina e o MDMA estão ambos agrupados na categoria dos alucinogénios na 5ª Edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5), “e ambos são conhecidos por terem potencial aditivo, isto pode ter obscurecido as respostas dos participantes”, explicou.

Cerca de 28% dos participantes expressaram preocupações com a possibilidade do uso de psicadélicos poder aumentar o risco de perturbações psiquiátricas subsequentes e o risco de prejuízo cognitivo a longo-prazo.

Quase três quartos (74,5%) dos participantes acreditam que o uso terapêutico dos psicadélicos deve ser legalizado. No entanto, a maioria defendeu que os psicadélicos terapêuticos legalizados fossem altamente regulados e apenas administrados em ambientes controlados por técnicos especialmente treinados. Interessantemente, quase metade da amostra acreditava que os psicadélicos terapêuticos deveriam ser legalizados numa variedade de diferentes contextos e por técnicos não-ocidentais, em concordância com as tradições indígenas e/ou espirituais.

“Um resultado surpreendente consistiu no facto de que a maioria dos participantes acreditava que os doentes estariam interessados em usar psicadélicos para tratar as PUS”, mencionou Kim.

“Isto pode refletir atitudes em evolução, tanto da parte dos profissionais como dos doentes, sobre os psicadélicos e será interessante estudar melhor as atitudes dos doentes relativamente ao uso de psicadélicos para tratar as PUS no futuro”, acrescentou.

As atitudes para com os psicadélicos foram, de forma geral, semelhantes entre os psiquiatras e não-psiquiatras; mas os psiquiatras expressaram um maior conforto em discuti-los com os doentes e foram mais propensos a ter observado complicações do uso de psicadélicos na sua atividade profissional.

Kim reforçou que as limitações do estudo incluíram o pequeno tamanho da amostra e o possível viés de seleção, tendo em conta que aqueles com visões mais favoráveis dos psicadélicos podem ter sido mais propensos a responder.

Necessária Mais Educação

Comentando para a Medscape Medical News, Brian Barnett, médico especialista em adições e professor assistente de psiquiatria na Cleveland Clinic, Ohio, disse que o estudo “contribui com descobertas importantes” para a literatura crescente acerca das visões dos clínicos sobre os psicadélicos.

“De uma forma importante, este estudo mostra que os participantes que conhecem a literatura científica sobre o uso terapêutico dos psicadélicos são mais propensos a manter a crença de que os psicadélicos são promissores no tratamento de perturbações psiquiátricas”, comentou Barnett, que não esteve envolvido no estudo.

Ele aludiu a que a adição a psicadélicos clássicos, como a psilocibina e o LSD, é “tão rara que a maioria dos especialistas fora da área das adições nunca verão mais do que uma mão-cheia de casos durante a sua carreira”. Ainda assim, o estudo sugere que as preocupações com o potencial aditivo dos psicadélicos “pode estar a influenciar fortemente as preocupações com a legalização dos psicadélicos para uso médico”, disse Barnett.

“É claro que ainda existe uma educação importante a ser feita dentro da medicina sobre os potenciais aditivo e terapêutico dos psicadélicos, para que os clínicos possam pesar adequadamente os potenciais riscos e benefícios destes compostos intrigantes, caso cheguem ao mercado, para os seus doentes que sofrem com perturbações de saúde mental e adições”, declarou.

Barnett reiterou também que a interpretação dos resultados do estudo é limitada pela falta de informação sobre como aqueles que não responderam ao questionário diferem dos que responderam.

Artigo Original de Pauline Anderson, publicado no Medscape Medical News a 16/12/2021.

Tradução livre por Patrícia Marta



Patrícia Marta
Patrícia Marta
Médica de Psiquiatria | Membro Satélite SPACE

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