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Este Investigador Está a Estudar o Efeito Placebo Nos Psicadélicos Com Um “God Helmet”

Este Investigador Está a Estudar o Efeito Placebo Nos Psicadélicos Com Um “God Helmet”

15 de outubro de 2022 7 minutos de leitura

  • Patrícia Marta
  • Psicadélicos

Michiel van Elk, professor associado de psicologia cognitiva na Universidade de Leiden, costumava ser muito anti-drogas após crescer numa comunidade cristã conservadora. Uma experiência psicadélica mais tarde na vida colocou-o no caminho para a investigação psicadélica e hoje ele tem uma abordagem interdisciplinar para estudar diferentes aspetos da experiência psicadélica – desde religioso, neurocientífico, espiritual e cognitivo até científico social. Uma parte importante do trabalho atual de Van Elk diz respeito ao papel dos efeitos placebo na experiência psicadélica.

Numa investigação prévia, ele usou um dispositivo sinistramente chamado de “God Helmet” (em português, “capacete de Deus”). Este capacete é essencialmente um dispositivo de estimulação cerebral simulado: os participantes eram levados a acreditar que o capacete iria estimular o seu cérebro – potencialmente resultando numa experiência mística. Na realidade, não fez absolutamente nada.

Muitos participantes – de facto – reportaram ter uma experiência mística enquanto carregaram o God Helmet. Este resultado cria questões acerca do papel do efeito placebo nas experiências místicas no geral e naquelas induzidas por psicadélicos em particular.

Esta ideia é ainda apoiada pelo estudo “Tripping on Nothing”, no qual os investigadores fizeram um esforço conjunto para reproduzir o contexto experimental em que os psicadélicos tendem a ser administrados, incluindo música ambiente, pinturas psicadélicas e luzes que mudam de cor. E também aí muitos participantes reportaram experiências geralmente associadas a uma dose média a elevada de psilocibina (Olson et al., 2022) – embora tenham recebido um placebo.

Jasper Lucas (OPEN Foundation): Qual é a sua perspetiva sobre o papel dos efeitos placebo na experiência psicadélica?

Michiel: Penso que essa é ainda uma questão muito aberta. Uma perspetiva é a de que os efeitos dos psicadélicos são, pelo menos parcialmente, mediados por efeitos placebo, porque as pessoas têm expectativas sobre estes efeitos. Outra é a de que os psicadélicos são essencialmente super placebos, ao tornarem as pessoas mais sugestionáveis – levando a uma resposta placebo mais forte. A investigação sobre placebo é um campo extenso e estabelecido, incluindo a minha própria investigação com o God Helmet. Pretendemos integrar esta área de estudo com investigação sobre a experiência psicadélica: De que modo as expectativas influenciam a experiência psicadélica? E como podem os psicadélicos aumentar a resposta placebo?

Jasper: Parece que ainda há muito por descobrir sobre o papel dos efeitos placebo na experiência psicadélica. Assumindo que este papel realmente existe, acha que as crenças do investigador também desempenham um papel, para além das do doente? Michiel: Os efeitos placebo são parcialmente baseados na credibilidade percebida do experimentador. O experimentador não precisa de acreditar ele mesmo em certos efeitos para ser uma fonte credível. Se eu mesmo usar o placebo God Helmet, não vai acontecer grande coisa. Mas se eu o der a um participante e lhe falar sobre como isso irá estimular o seu cérebro, algo vai acontecer. Isto tem a ver com autoridade e sugestionabilidade. O que é importante é que o participante acredite na história, não tanto o investigador em si. Acho que isto também está subjacente a muitos tratamentos psiquiátricos: o que importa é o significado que os doentes atribuem ao tratamento e a sua confiança no clínico, ao invés do conhecimento do efeito dos neurotransmissores ou SSRI’s.

Jasper: Como é que investigaria isso? Daria informações diferentes a participantes diferentes? Ou mediria as diferenças existentes nas expectativas? Michiel: Essa é, de facto, uma opção: medir diferenças individuais em crenças existentes. Simplesmente perguntar aos participantes o que acham que vai acontecer antes de tomarem um psicadélico. Planeamos torná-lo explícito ao manipular expectativas sobre a dose. Poderíamos manter a dosagem constante, mas dizer-lhes que são 5 gramas num dia e 10 gramas noutro. Outra manipulação é através do enquadramento, por exemplo dizer às pessoas que a substância tem fortes efeitos visuais ou que induz experiências místicas. Isto é comparável ao que as smartshops [dispensários legais de escleródios psicadélicos na Holanda] já fazem atualmente. Será que as pessoas têm realmente experiências mais “filosóficas” e autorreflexivas se tomarem pedras filosofais em comparação com trufas havaianas, se a embalagem assim o sugerir?

Jasper: Um dos desafios, a meu ver, é que não se consegue controlar o que as pessoas leem ou já ouviram sobre psicadélicos – e como isso afeta as expectativas das pessoas. Existe alguma maneira de medir essas crenças e usá-las como uma variável? Michiel: Na prática isso é muito difícil, porque para incluir diferenças individuais como estas, são precisos tamanhos de amostra enormes. Em estudos com estimulação cerebral placebo como com o God Helmet – onde colocamos algo nas cabeças das pessoas que supostamente estimula o seu cérebro, mas que na realidade não o faz – medimos quais são as crenças destes participantes em relação a “estimulação cerebral”. Se eles acreditam que realmente existe, o que leram sobre o assunto, etc. No entanto, nada consistente foi encontrado lá! Recentemente, um artigo na Nature argumentou de forma convincente que, se alguém estiver interessado em estabelecer uma relação entre uma medida cerebral X e uma medida de diferença individual Y – como a relação entre a personalidade e o desempenho cognitivo – precisa de milhares de participantes para estabelecer tal efeito. Isto basicamente ilustra que, em quase todos os estudos que analisaram o cérebro – as correlações de comportamento são severamente fracas.

Jasper: Isso destaca a importância de práticas de ciência abertas, como o compartilhamento de dados. Michiel: Sem dúvida. O que gostava de ver mais é ciência colaborativa, onde várias instituições diferentes aderem ao mesmo protocolo e coletam dados em conjunto. Ensaios clínicos recentes com psicadélicos empregaram este modelo de forma bem-sucedida para estudos de Fase II, por exemplo. Contudo, quando se trata de estudos de ressonância magnética funcional, atualmente não estamos nem perto disto ser uma realidade. Felizmente, tentativas recentes foram feitas para compartilhar mais dados, como scripts de análise entre diferentes instituições. Esse é um importante e emocionante passo em frente!

Jasper: Obrigada por partilhar os seus pensamentos sobre este tópico. Por fim, gostaria de lhe perguntar: Qual acha que será a posição dos psicadélicos no campo da psicologia cognitiva no ano de 2032? Michiel: Pergunta interessante. Espero que diferentes psicadélicos estejam desenvolvidos com um mecanismo mais claramente definido. Por exemplo, um perfil de neurotransmissão mais claro. O LSD e a psilocibina estimulam o recetor 5-HT2A, mas também têm muitos efeitos farmacológicos diferentes a jusante, tornando difícil atribuir os seus efeitos apenas a este recetor. A Cetanserina já ajuda muito, mas os psicadélicos com maior especificidade tornariam isto muito mais fácil. Neste contexto, também percebo porque é que os psicofarmacologistas experientes estão um pouco céticos em relação aos psicadélicos – farmacologicamente falando, não é uma manipulação muito “limpa”. No entanto, isso também torna estas substâncias tão interessantes ao mesmo tempo!

Recentemente, Jasper Lucas falou com Michiel numa ampla conversa com uma ampla discussão sobre questões em torno do campo da ciência psicadélica. Esta é a parte dois dessa conversa. Van Elk dirige o laboratório PRiSM na Universidade de Leiden, que estuda experiências psicadélicas, religiosas, espirituais e místicas e recebeu uma prestigiada subvenção governamental VIDI NWO para estudar os efeitos dos psicadélicos. É o autor do livro “A sober look at psychedelics” – disponível em holandês – e foi também um orador na conferência ICPR 2022.

Artigo Original de Jasper Lucas, publicado na Open Foundation a 14/06/2022.

Tradução livre por Patrícia Marta



Patrícia Marta
Patrícia Marta
Médica de Psiquiatria | Membro Satélite SPACE

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