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Não são apenas os psicadélicos, a terapia é importante!

Não são apenas os psicadélicos, a terapia é importante!

24 de dezembro de 2022 4 minutos de leitura

  • Pedro Mota
  • Psicadélicos
  • Sociedade

Escrito por William Richards, Ph.D., psicólogo do departamento de Psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins e também da Sunstone Therapies, que realiza ensaios clínicos com psicadélicos para quadros de sofrimento psíquico.

No mês passado, a maioria dos habitantes do Colorado votou para aprovar a Proposta 122, uma medida para legalizar o uso das substâncias psicadélicas psilocibina (e o seu composto ativo, psilocina). Isso torna o Colorado o segundo estado norte-americano, depois do Oregon, a legalizar o uso de psicadélicos para fins terapêuticos.

Como passei as últimas seis décadas da minha vida a tentar aumentar a aceitação do potencial terapêutico das substâncias psicadélicas, sei que, quando usados com competência, os psicadélicos auxiliam na cura de muitas formas de sofrimento humano, muitas vezes consideradas “doenças mentais”. Estudos clínicos recentes apontam para um grande potencial destas terapias e temos assistido a uma pressão sem precedentes para trazê-las para as grandes massas.

É encorajador que a Proposição 122 exija o uso de psicadélicos sob a supervisão de profissionais licenciados e uma maior educação. Porém, o cumprimento dessas disposições e de outras semelhantes é o mais importante. De facto, a maneira como essas terapias são aplicadas é muito mais importante do que as moléculas que tantas empresas estão a concentrar os seus esforços para desenvolver.

Em 1977, fui a última pessoa nos Estados Unidos envolvida em um ensaio clínico usando psicadélicos para catalisar a psicoterapia – uma investigação que o governo federal encerrou como parte da “Guerra às Drogas”. Felizmente, em 1999, a Universidade Johns Hopkins deu ao psicólogo Roland Griffiths e a mim luz verde para retomar as investigações sobre o potencial terapêutico da psilocibina, o composto psicadélico encontrado em muitas espécies de cogumelos. Hoje, existem 128 ensaios clínicos nos EUA a decorrer que procuram avaliar o seu papel terapêutico.

Juntamente com o impulso na investigação clínica, houve uma proliferação de livros, artigos e documentários que conscientizam e apresentam fortemente (na maioria dos casos, de forma responsável) os benefícios potenciais dos psicadélicos. Não surpreendentemente, investidores privados já estão a apostar no futuro dos psicadélicos, esperando construir um novo mercado em muitas cidades e estados.

Preocupa-me, no entanto, que muitas iniciativas estejam focadas na legalização de psicadélicos sem considerar a melhor forma de aplica-los para garantir a segurança e maximizar a sua eficácia.

Os psicadélicos são mais úteis e seguros quando administrados num ambiente criado intencionalmente para incutir confiança nos terapeutas que tenham formação certificada e experiência para preparar e apoiar os pacientes durante o período de ação da substância. Os terapeutas devem estabelecer “grounding interpessoal”, isto é, uma relação de confiança que permite que os pacientes se sintam seguros, abertos e com abertura perante as oportunidades de explorar a sua mente.

Como explico em Sacred Knowledge: Psychedelics and Religious Experiences, a experiência de alguém com um psicadélico é um pouco como esquiador alpino. Quase qualquer um pode subir ao topo de uma montanha, agarrar-se a um par de skis e descer a montanha sozinho. Pode até ser emocionante. No entanto, se as encostas não forem bem mantidas, é menos provável que confiemos no ambiente o suficiente para nos “deixarmos ir” e permitir que as nossas habilidades nos levem para a melhor experiência. A descida pode ser perigosa se a pessoa não aprender a equilibrar-se, controlar a velocidade e parar com segurança; o esquiador pode lutar para ficar de pé e perder os trilhos mais gratificantes, habitualmente escondidos da visão dos estreantes ou pouco experientes. É possível que, sem orientação, alguém tenha uma boa experiência psicadélica, mas é provável que tal comporte vários riscos. Podem emergir sentimentos e memórias há muito submersos, que sem um terapeuta experiente, podem não ser capazes de explorar processos profundamente catárticos e reveladores que os psicadélicos podem fornecer. Mais que isso, se forem emergindo sensações ou emoções perturbadoras ao longo da experiência, pode haver uma grande dificuldade em interpretá-las ou geri-las.

Ninguém pode estar mais satisfeito do que eu com a crescente aceitação dos psicadélicos para ajudar aqueles que podem beneficiar deles. Mas devemos todos agir com cuidado e deliberadamente à medida que expandimos a sua disponibilidade. Tal significa garantir que sejam realizados sob a supervisão de terapeutas bem formados e em ambientes seguros e bem monitorizados. Também significa fornecer às pessoas as informações de que precisam para obter os resultados mais seguros e bem-sucedidos se optarem por tomar um psicadélico.

Artigo Original de William Richards publicado no Psychology Today a 21/12/2022.

Tradução livre por Pedro Mota



Pedro Mota
Pedro Mota
Médico de Psiquiatria | SPACE (Direção)

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