
Trump e os psicadélicos: boa ou má notícia?
27 de abril de 2026 • 4 minutos de leitura
- Pedro Castro Rodrigues
- Psicadélicos
- Sociedade
O Presidente norte-americano anunciou esta semana que vai flexibilizar as pesquisas sobre a utilização de substâncias psicadélicas nos tratamentos relacionados com problemas de saúde mental
Donald Trump assinou esta semana uma ordem executiva para acelerar a aprovação de substâncias psicadélicas como tratamentos médicos. O anúncio foi feito numa cerimónia no Oval Office, com Joe Rogan ao lado - que afirmou ter sido ele a convencer o Presidente por mensagem de texto. Para quem trabalha nesta área, a notícia provoca sentimentos contraditórios.
A crise que motivou décadas de investigação com psicadélicos é real e urgente. Cerca de 30% dos doentes com depressão não respondem aos tratamentos disponíveis. A dependência de opioides mata 80 mil pessoas por ano, só nos Estados Unidos. O suicídio continua a ser a principal causa de morte em jovens entre os 15 e os 29 anos. É neste contexto que a investigação com psicadélicos ressurgiu — não como moda, mas como resposta científica séria a um sofrimento que os tratamentos existentes não conseguem resolver.
Os dados acumulados são impressionantes: a terapia com psilocibina apresenta efeitos antidepressivos sustentados várias semanas após uma única administração da substância; a psicoterapia assistida por MDMA (substância também conhecida pelo nome de ecstasy) mostrou resultados no tratamento da perturbação de stress pós-traumático muito superiores a qualquer tratamento aprovado; a ibogaína tem demonstrado potencial no tratamento da dependência de opioides.
O quadro regulatório atual tem sido um obstáculo real. Nos Estados Unidos - e na maior parte do mundo -, a classificação destas substâncias considerando que não teriam valor terapêutico reconhecido, tornou a investigação extraordinariamente difícil e burocrática. Se as medidas propostas forem implementadas com rigor científico e supervisão clínica adequada, podem genuinamente reduzir barreiras que têm atrasado o acesso de doentes a tratamentos potencialmente transformadores. Há algo de simbolicamente importante no facto de um governo conservador - historicamente associado à "Guerra às Drogas" - reconhecer o valor terapêutico destas substâncias.
E, no entanto, a forma como isto aconteceu importa tanto quanto o que aconteceu.
A narrativa centrou-se na ibogaína - uma substância que, apesar do seu potencial, é muito menos segura que a psilocibina ou o MDMA, e está associada a mais de 30 mortes documentadas, sobretudo por arritmias cardíacas fatais. Aprová-la "em semanas", sem os ensaios clínicos necessários para estabelecer a sua segurança, seria, na melhor das hipóteses, prematuro.
Mas o problema mais profundo é o modelo. Nos últimos anos, assistimos ao que alguns investigadores já designam de psychedelic capitalism (ou ‘corporate psychedelia’) - a entrada massiva de capital privado neste campo. O que se perde neste processo é precisamente o que torna estes tratamentos eficazes: os melhores resultados foram obtidos em ensaios académicos que combinavam a substância com psicoterapia estruturada, preparação cuidadosa e integração da experiência.
O contexto - o set and setting - não é um pormenor teórico: é parte do mecanismo de ação. Quando os protocolos académicos se tornam produtos comerciais, a psicoterapia é frequentemente eliminada para reduzir custos. Os efeitos diminuem. Os riscos aumentam. Uma aprovação acelerada por decreto executivo, motivada por narrativas políticas e interesses comerciais, sem dados de segurança completos, não é uma vitória para as pessoas com perturbações de saúde mental. É um risco que recai sobre os mais vulneráveis.
Há dois erros simétricos que a investigação com psicadélicos tem procurado evitar: o estigma que durante décadas negou qualquer valor terapêutico a estas substâncias, e o hype que as apresenta como cura universal. A ordem executiva de Trump corre o risco de alimentar o segundo erro, ao mesmo tempo que pode criar condições para corrigir o primeiro.
O que a ciência e os pacientes nos pedem é que nos mantenhamos num terreno intermédio: reconhecer o potencial real destas substâncias, exigir os padrões de evidência que qualquer tratamento médico merece, e garantir que o suporte clínico não seja sacrificado no altar da eficiência comercial.
Portugal, com a sua tradição de abordagem pragmática e humanista às políticas de drogas, tem aqui uma oportunidade de contribuir para este debate com a seriedade que ele merece. Não seguindo Trump. Mas também não ignorando o que a ciência tem dito, com crescente clareza, sobre o sofrimento que estas substâncias podem ajudar a aliviar.
Texto originalmente publicado no jornal Expresso a 22/04/2026.

Pedro Castro Rodrigues
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