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Combinando Antidepressivos e Psilocibina: Um Olhar sobre a Investigação

Combinando Antidepressivos e Psilocibina: Um Olhar sobre a Investigação

3 de setembro de 2022 8 minutos de leitura

  • Patrícia Marta
  • Psilocibina
  • Psiquiatria

Os estudos sugerem que se pode fazer ambos.

A Ligação Entre Psilocibina e Depressão

Ensaios clínicos recentes têm demonstrado o enorme potencial da psilocibina para a depressão e muitas pessoas não querem esperar até que seja legal para a começarem a usar.

A psilocibina é um composto psicadélico que mostrou reduzir os sintomas de depressão em apenas uma ou duas sessões. Para os 13% de Americanos que tomam antidepressivos diariamente, geralmente durante anos, esta opção alternativa parece ser atrativa. Existem algumas razões potenciais para a psilocibina estar a ter um impacto tão grande nos sintomas depressivos.

Os estudos têm mostrado que as pessoas com depressão têm níveis mais elevados de inflamação. Felizmente, a psilocibina tem efeitos anti-inflamatórios, o que pode explicar o mecanismo por trás dos benefícios da psilocibina, porque o tratamento anti-inflamatório tem efeitos antidepressivos.

A psilocibina também demostrou aumentar a neuroplasticidade ao alterar a estrutura e função dos neurónios no córtex. Isto é especialmente importante para os doentes deprimidos, porque a depressão está associada à atrofia dos neurónios corticais e à perda de espinhas dendríticas. Juntamente com as mudanças físicas no cérebro, os psicadélicos podem facilitar a aprendizagem, a adaptabilidade e o pensamento flexível.

Como a psilocibina demonstrou ter um impacto na depressão, um estudo recente comparou a sua eficácia com um SSRI comumente prescrito, o escitalopram. Ambos os compostos diminuíram os scores de depressão de forma comparável, mas a psilocibina de forma geral teve um melhor desempenho nas medidas secundárias (medições alternativas para depressão, ansiedade, evitamento experiencial, trabalho, vida social, etc.).

Outro estudo analisou as conexões no cérebro usando ressonância magnética funcional (fMRI). Descobriram que as redes neuronais funcionais se tornaram mais interconectadas e flexíveis um dia após o tratamento com psilocibina, enquanto que nenhuma dessas alterações ou conectividade foi observada no grupo do escitalopram.

Acesso à Psilocibina

A psilocibina não é legal na maioria dos sítios no mundo, pelo que as únicas opções que as pessoas têm para aceder neste momento são candidatar-se como participante num ensaio clínico ou então irem a um centro de retiros com psilocibina noutro país.

O problema para as pessoas medicadas com antidepressivos é que alguns ensaios clínicos e centros de retiros estão a pedir às pessoas para descontinuarem qualquer medicação antes de os frequentarem. A MycoMeditations quer maximizar o benefício da psilocibina, enquanto a Synthesis diz que “é difícil antecipar como os SSRI’s possam interagir com a psilocibina”. Existem algumas razões para esta preocupação.

Combinando Psilocibina e Antidepressivos

O Síndrome Serotoninérgico (SS), também conhecido como Toxicidade da Serotonina, é uma condição potencialmente com risco de vida que resulta da combinação de drogas que aumentam os níveis de serotonina nos recetores sinápticos 5-HT2A. Tanto os SSRI’s como a psilocibina se enquadram nesta categoria, pelo que parece que a combinação dos dois poderia potencialmente levar a um SS. Kelan Thomas, Professor Associado na Touro University California College of Pharmacy, estuda os efeitos adversos das interações medicamentosas. Ele explica que “a psilocibina, sendo um psicadélico agonista parcial do recetor serotoninérgico 5-HT2A, parece ter o menor risco de qualquer tipo para SS”. Ele diz que há evidência “insegura” quando se analisa os relatos de caso.

A Dr.ª Erica Zelfand, Médica de Família e Facilitadora Psicadélica Certificada, organizou um webinar recente sobre antidepressivos e psilocibina com quase 400 participantes. Ela tem trabalhado com doentes que tomam psilocibina e antidepressivos e sugere que não há suporte científico suficiente que justifique o pedido de solicitar aos doentes que deixem os seus antidepressivos, notando que “os casos graves de toxicidade serotoninérgica com a psilocibina são raros”. A Dr.ª Zelfand enfatiza a dificuldade de suspender as medicações.

Para as pessoas que fazem SSRI’s por um longo período, o sistema nervoso adapta-se ao bloqueio do canal de recaptação e ao aumento da serotonina na sinapse. Eventualmente, ocorre downregulation dos recetores da serotonina, o que significa que uma menor quantidade de recetores fica disponível e os que estão presentes tornam-se menos sensíveis ao longo do tempo.

Este mecanismo também ajuda a explicar o motivo pelo qual ocorrem sintomas de abstinência quando os SSRI’s são descontinuados.

Os sintomas de abstinência, ou Síndrome de Descontinuação de Antidepressivos (SDA), são comuns, com cerca de 20% dos doentes a experienciarem sintomas após a descontinuação abrupta da sua medicação. Ao descrever a sua experiência, um doente referiu que “quando os deixei, senti que tinha choques elétricos a saírem do meu cérebro”.

Os Benefícios da Redução Lenta

Para prevenir que ocorra a SDA, a redução lenta é recomendada se os doentes quiserem descontinuar as suas medicações.

A Dr.ª Zelfand denota que o erro mais comum feito por pessoas interessadas em usar psilocibina para aliviar sintomas depressivos é suspenderem a medicação demasiado depressa. Ela menciona que os seus doentes lhe perguntam frequentemente se podem descontinuar a medicação num período de tempo mais curto ou mesmo parar abruptamente por causa de uma oportunidade de retiro que surge de repente.

Ela recomenda fortemente que eles não participem num retiro antes de os seus corpos e mentes se poderem reequilibrar após uma redução lenta. Os estudos recomendam descontinuar gradualmente durante um mínimo de 2-4 meses, com reduções de 10% na dosagem a cada poucas semanas, para a chance de sucesso mais eficaz e segura.

Estudos Mostram Que Poderá Não Ser Necessário Descontinuar Antidepressivos

Curiosamente, os doentes podem não precisar de descontinuar os SSRI’s se quiserem trabalhar com psilocibina.

Um estudo recente demonstrou que os SSRI’s em combinação com psilocibina são seguros.

No estudo, 27 participantes tomaram o SSRI, escitalopram, ou o placebo diariamente durante duas semanas antes de uma viagem com cogumelos. Os doentes foram depois cruzados para que o grupo placebo começasse a tomar escitalopram durante 2 semanas e vice-versa antes de outra viagem com cogumelos. Os resultados mostraram que o grupo a fazer SSRI’s experienciou, na mesma, efeitos positivos no humor com a psilocibina. O grupo dos SSRI’s verificou efeitos medicamentosos negativos significativamente menores, tais como ansiedade, náusea, cefaleia e fadiga, pelo que os SSRI’s podem ter um efeito protetor.

O estudo concluiu: “A interrupção do tratamento com escitalopram antes da administração de psilocibina pode não ser justificada”.

Mesmo antes deste estudo, as pessoas experimentavam psilocibina enquanto tomavam SSRI’s e muitas pessoas reportavam um efeito comum. Muitos testemunhos online dizem ter notado uma diminuição significativa dos efeitos da psilocibina.

Lembre-se que, num cérebro não medicado, os cogumelos estimulam o recetor 5-HT2A que causa os efeitos psicadélicos, enquanto que um cérebro em SSRI’s pode ter menos recetores disponíveis e assim haver menos estimulação.

Contudo, o Investigador Principal do estudo com escitalopram, Dr. Matthias Liechti, não observou um impacto nos efeitos da psilocibina no grupo que tomou o SSRI, embora se deva ter em conta que foi um estudo pequeno. Ele disse que “estes resultados indicam que a psilocibina pode ser doseada durante o tratamento com escitalopram sem um impacto aparente no efeito da psilocibina”.

Os Efeitos Podem Variar Por Doente

A Dr.ª Zelfand, no entanto, trabalhou com doentes que experienciam menos efeitos psicadélicos quando tomam SSRI’s.

“Na minha própria evidência anedótica, o que descobri é que as pessoas que têm usado SSRI’s a longo-prazo precisam de doses mais altas de psilocibina. Precisam de comer mais cogumelos, cerca de 30 a 50% mais, em termos da sua dosagem.”

Por exemplo, se um utilizador não-medicado tomaria 3g para uma experiência psicadélica moderada, um utilizador de SSRI precisaria de tomar entre 4 a 5 gramas, o que pode ser considerado uma experiência intensa para um utilizador não-medicado. Felizmente, não existe nenhuma dose letal conhecida de psilocibina.

A Dr.ª Zelfand concluiu a sua apresentação com um relato de caso de uma dos seus doentes, chamada Judy. A Judy tinha 53 anos e sofria de depressão crónica, discurso interno negativo e problemas com os seus pais, e tomava Citalopram há uns anos. Ela decidiu continuar a sua medicação prescrita e manter sessões de terapia semanais antes, durante e depois das suas viagens com psilocibina.

A sua primeira dose de psilocibina foram 8g e, seis meses depois, tomou 10g juntamente com canábis. Os resultados da Judy foram limites mais saudáveis com a sua família, a capacidade de aproveitar o tempo com a sua mãe e a capacidade de se impor. Ela está agora numa dose mais baixa do SSRI.

É importante ter em conta que a psilocibina não é a única maneira de aumentar a neuroplasticidade ou diminuir a inflamação em doentes com depressão. No webinar da Dr.ª Zelfand, ela dá ênfase à importância da saúde holística e ao facto de, quer alguém tente ou não a psilocibina, existirem muitas outras formas de aumentar a neuroplasticidade.

Métodos apoiados pela investigação incluem exercício e ter um sono de qualidade, jejum intermitente, aprender novas habilidades, e jogos de memória como palavras-cruzadas e Sudoku. Para aliviar sintomas de depressão, os doentes são encorajados a usar quaisquer ferramentas disponíveis para eles.

A depressão é desafiante de tratar, por isso é promissor ver novos estudos a investigarem a psilocibina como uma alternativa aos tratamentos antidepressivos padrão. Embora seja demasiado cedo para se dizer se os doentes devem descontinuar os antidepressivos ou combiná-los com o tratamento de psilocibina, tanto os profissionais como os doentes devem partilhar as suas histórias e ajudar a contribuir para a investigação.

Artigo Original de Alexa Julianne, publicado no Microdose a 27/05/2022.

Tradução livre por Patrícia Marta



Patrícia Marta
Patrícia Marta
Médica de Psiquiatria | Membro Satélite SPACE

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