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Terapia Psicadélica e Suicídio: Um Mito Desfeito?

Terapia Psicadélica e Suicídio: Um Mito Desfeito?

13 de junho de 2022 3 minutos de leitura

  • Patrícia Marta
  • Psicadélicos
  • Psiquiatria

A crença comum de que a terapia com psicadélicos clássicos pode despoletar pensamentos suicidas, ações suicidas ou outros tipos de comportamento autolesivo não é apoiada pela investigação científica e, na realidade, o oposto pode ser verdade.

Os resultados de uma meta-análise de dados individuais de doentes mostraram que a terapia psicadélica foi associada a reduções significativas, agudas e sustentadas na suicidalidade de uma variedade de populações clínicas de doentes.

“Esta é a primeira análise a sintetizar os dados de suicídio de ensaios clínicos recentes com psicadélicos. Dá-nos uma melhor compreensão dos efeitos dos psicadélicos na suicidalidade no contexto de ensaios clínicos”, disse o investigador do estudo Dr. Cory Weissman, do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Toronto, no Canadá.

A evidência sugere que a terapia psicadélica “pode reduzir a ideação suicida quando administrada no contexto apropriado e fornecida a doentes cuidadosamente selecionados”, disse Weissman.

Estes resultados foram publicados online a 18 de Janeiro de 2022, no The Journal of Clinical Psychiatry.

É Necessária Mais Investigação

A análise incluiu sete ensaios clínicos com terapia psicadélica que tinham dados sobre a suicidalidade. Cinco dos ensaios usaram psilocibina mais psicoterapia e dois usaram ayahuasca mais psicoterapia. Todos os sete ensaios tinham um risco “baixo” de viés.

Os doentes incluídos nos ensaios clínicos tinham perturbação depressiva major (PDM) resistente ao tratamento, PDM recorrente, desmoralização relacionada com SIDA, e sofrimento relacionado com cancro potencialmente fatal.

Os resultados meta-analíticos mostraram reduções significativas na suicidalidade em todos os pontos temporais agudos (80 a 240 minutos pós-administração) e na maioria dos pontos temporais pós-agudos (1 dia a 4 meses pós-administração).

Os tamanhos de efeito para reduções na suicidalidade foram “grandes” em todos os pontos temporais agudos, com diferenças médias padronizadas (DMP) que variaram entre -1.48 e -1.72, e permaneceram grandes desde 1 dia até 3-4 meses após a terapia (variação de DMP, -1.50 a -2.36).

Aos 6 meses, o tamanho de efeito para reduções na suicidalidade com terapia psicadélica foi “médio” (DMP, -0.65).

Tamanhos de efeito grandes para reduções na suicidalidade ocorreram nas diferentes populações de doentes representadas no ensaio clínico, como notam os investigadores.

Nenhum estudo reportou qualquer evento adverso relacionado com suicídio devido à administração de um psicadélico. Também se verificaram “muito poucas” elevações agudas (6.5%) ou pós-agudas (3.0%) na suicidalidade, “o que apoia a segurança da terapia psicadélica em contextos controlados”, escreveram os investigadores.

Eles alertam, no entanto, para a necessidade de grandes ensaios controlados que avaliem especificamente o efeito da terapia psicadélica na suicidalidade.

Via Promissora

Num editorial a acompanhar, Daniel Grossman e Peter Hendricks, do Departamento de Comportamento de Saúde da Universidade de Alabama em Birmingham, assinalam que os resultados desta revisão garantem “otimismo” para o uso de psicadélicos no tratamento da suicidalidade.

Com base neste estudo e noutros, a terapia com psicadélicos clássicos para a suicidalidade parece ser uma “via promissora” para uma investigação mais aprofundada, escreveram os autores.

Contudo, pesquisas e relatos de caso sobre o aumento da suicidalidade e outros comportamentos autolesivos atribuídos à terapia psicadélica, “embora evidentemente raros, continuam a ser uma preocupação crítica” a ser abordada em investigações futuras, acrescentaram Grossman e Hendricks.

A esperança é que investigações futuras “clarifiquem quem está mais sujeito a estes riscos, quais os fatores que melhor os identificam e como melhor navegar no seu tratamento com segurança”, escreveram.

Artigo Original de Megan Brooks, publicado na Medscape a 01/02/2022.

Imagem de Jon Han

Tradução livre por Patrícia Marta



Patrícia Marta
Patrícia Marta
Médica de Psiquiatria | Membro Satélite SPACE

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